Dom, 31 de Maio de 2009 01:10
Fonte: Jornal Folha da Manhã
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Folha 2
ENTREVISTA > Vera Pletitsch

Ensinar arte é promover experiências
As aulas de educação artística estão com os dias contados. Um novo conceito de arte se desenvolve entre profissionais de educação comprometidos com a vivência que os alunos têm do belo. Reconhecer, compreender, analisar e criticar obras de arte, experienciado a estética na própria vida é o novo desafio para professores e estudantes, que devem sintonizar esse conhecimento com todos os outros da grade curricular. Nesta entrevista, Vera Pletitsch, artista plástica, arte-educadora e mestranda em Arte (Uerj), fala das mudanças que se operam nas aulas antes dedicadas a recortes e colagens na maioria das escolas e na educação de jovens e adultos. Além de discorrer sobre o tema, Vera também apresenta o Pólo Arte na Escola, da Uenf, que dá suporte aos profissionais da área.
Folha da Manhã - Tradicionalmente, em muitas escolas, notadamente as públicas, a arte é pensada como um momento de lazer para recortes, colagens, feitura de mural, montagem de "teatrinho". Hoje, existe uma iniciativa para mudar essa mentalidade e incutir entre os professores um novo conceito de arte-educação. Qual a natureza dessa nova proposta?
Vera Pletitsch - Essa forma de entender arte como lazer decorreu de uma má interpretação, no Brasil, da idéia da "livre expressão" defendida por teóricos como Lowenfeld, John Dewey e Herbert Read. Tal idéia chegou aqui por volta da década de 30 e tinha muita influência da psicologia e da psicanálise. Hoje, o que se defende é uma nova maneira de entender a arte no contexto escolar, ou seja, que a arte é um campo de conhecimento envolvendo aspectos tanto emocionais quanto cognitivos, componente da cultura de todas as sociedades em todos os tempos e, portanto, formadora da subjetividade.
Folha - No caminho de uma disciplina que, assim como as outras, exige método, mas, como você acaba de dizer, deve considerar a subjetividade do aluno, como se orienta esse ensino, em termos de academicismo e liberdade para criação?
Vera Pletitsch - A questão da exigência do academicismo ou da liberdade de criação diz respeito muito mais à técnica, à feitura de uma obra, à prática do artista, não é uma questão fundamental na arte-educação. Na escola, o que importa é o processo no qual o aluno participa de experiências estéticas, no sentido de vivenciá-las. Vivenciar uma experiência estética não é apenas pintar ou desenhar, é ter contato com obras e processos artísticos, é contextualizá-los, criticá-los, analisá-los, lembrando sempre que a arte fala da vida, da realidade ou realidades, tanto as concretas quanto as imaginadas.
Folha - Nesse contexto, essa nova maneira de pensar a arte-educação é "protegida" e incentivada, inclusive, pelos Parâmetros Curriculares Nacionais...
Vera - Os Parâmetros Curriculares Nacionais colocam a arte como campo de conhecimento, componente curricular com a mesma importância dos outros, como matemática ou história, mas, como os PCNs não têm força de lei, isso não tem sido respeitado em muitas escolas, tanto públicas quanto particulares. A arte se torna imprescindível à educação justamente porque é uma forma de conhecimento que não se dá de forma lógica como as outras. É uma outra maneira, não menos importante, de conhecer e se relacionar com o mundo; além disso, a arte faz parte do patrimônio cultural da humanidade.
Folha - Qual é a proposta desse ensino diferenciado de arte nas escolas?
Vera - É desenvolver a arte como campo de conhecimento com seus próprios conteúdos, dialogando com a filosofia, história, sociologia, antropologia, com as novas tecnologias e com as ciências de modo geral. Esses conhecimentos se articulam tanto no fazer como no conhecer arte. O ensino de arte na escola não tem por objetivo desenvolver talentos artísticos, mas, sim, ser um mediador qualificado entre a produção artística e o público, para que esse contato seja o mais rico possível. A arte-educação contemporânea prioriza o processo, não o produto final. Prioriza as vivências estéticas do aluno.
Folha - Para realizar o ensino de arte dessa maneira, então, há que se ter professores especializados e conhecedores da matéria. Que preparo os professores têm recebido, de um modo geral, principalmente do estado e das escolas de artes visuais, para enfrentar essa empreitada?
Vera - As licenciaturas em artes foram criadas no Brasil muito recentemente, na década de 70, e os programas de pós-graduação, na década de 80; portanto, ainda temos poucos professores de artes com essa qualificação atuando nas escolas. Em Campos, a recém criada licenciatura em artes visuais formou a primeira turma ano passado. Então, o que temos nas escolas são professores com formação em outras áreas atuando em artes. Algumas instituições culturais locais têm oferecido programações para educadores, o que auxilia na atualização destes. É aí que entra o Pólo Regional Arte na Escola, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, que tem como objetivo qualificar o ensino de arte através de ações de educação continuada.
Folha - Como o Pólo funciona?
Vera - O Pólo Regional Arte na Escola - Uenf é fruto de um convênio entre o Instituto Arte na Escola e a Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade Estadual do Norte Fluminense e atende a educadores e estudantes de qualquer área do conhecimento nas regiões Norte e Noroeste fluminense e dos Lagos, que estejam interessados em trabalhar com arte. As atividades oferecidas de educação continuada são cursos de educação patrimonial em parceria com a Oficina do Patrimônio da Uenf, de artes visuais e de animação cultural escolar; plantão pedagógico, que atende pessoalmente, por telefone ou via e-mail os educadores, auxiliando-os na elaboração de aulas, projetos e oficinas, indicando bibliografias, sugerindo atividades e orientando metodologicamente; grupos de estudos em artes visuais, arte na educação escolar, animação cultural escolar, projetos pedagógicos em artes visuais; oficinas de arte, onde são discutidas as potencialidades de trabalho pedagógico tanto teórico quanto prático a partir da exibição dos documentários de arte do acervo do pólo, e organização de palestras e seminários. Além disso, todos os anos, o Instituto Arte na Escola premia os melhores projetos pedagógicos em artes através do Prêmio Arte na Escola Cidadã, para o qual nosso Pólo presta auxílio aos interessados em concorrer. Como suporte para todo esse trabalho, contamos com uma midiateca que disponibiliza, para consulta e empréstimo, livros, revistas, filmes e materiais didáticos sobre arte e sobre o seu ensino. Temos tido uma grande receptividade junto aos educadores que atuam desde o ensino infantil até o superior, de diferentes áreas de conhecimento, e também entre os estudantes. Somente no ano de 2008, realizamos mais de 500 empréstimos de materiais. Hoje, temos no cadastro 108 educadores, que participam freqüentemente de nossas atividades, 30 participantes nos grupos de estudos e já realizamos cinco oficinas, que acontecem todo sábado na Casa de Cultura Villa-Maria, com exibição de documentários, debate e distribuição de material didático para os professores trabalharem com os alunos em sala de aula.
Jacqueline Deolindo - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
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